terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Rocamadour - A convicção do aduaneiro e o amor pelas rochas

Hoje é dia 15 de maio de 2011. Saímos bem cedo do hotel, em Sarlat, após compartilharmos o café da manhã com um grupo de japoneses, ou coreanos ou chineses, ou todos eles, enfim, orientais, alegres e descontraídos. Faz  frio de 7 graus, e um céu azul  maravilhoso. Esse clima é muito aconchegante. Um bom casaco, botas e cachecol são imprescindíveis, transformando nosso visual comum brasileiro, em peregrinos de cidadelas medievais.
São 11:17h, estamos percorrendo estas velhas, velhíssimas terras, nas quais o que mais chamam atenção são as casas trogloditas. Uma fragância de lavanda começa a  invadir nossa atmosfera, e as mais  vivazes cores colorem nossas estradas.
Enfim, seguimos viagem para Rocamadour. Foi esta cidade,  e Carcassone, que mais eu pesquisei  informações, pois elas, são muito famosas e interessantes.
A estrada é estreita, ladeada por rios, vegetação exuberante alternadas com planícies, casas com estrutura que se assemelham a castelos, com criação de patos e gansos no quintal. Paisagem bem prórpia da França interiorana, que me lembra contos de livros infantis .

No meio do caminho, em plena estrada, paramos para apreciar a paisagem, e tirar fotos da cidade de Rocamadour, ao longe, quando podemos vê-la panoramicamente, encrustada na rocha,  vislubrando um conjunto magnífico.

Assim que chegamos nesta cidade legendária, nosso primeiro acesso, foi através de um túnel em curva, super estreito e escuro ( Medo!!) porém nosso motorista é muito experiente. Imediatamente, já senti o impacto de estar em um lugar abençoado. O clima da cidade transmite uma energia envolvente, que arrasta o visitante para mil anos atrás.
O almoço foi na cidade, antes de subirmos as rochas. Eu estava muito ansiosa para ver de perto tudo aquilo que já conhecia, antecipadamente, por textos e fotos. Rapidamente curtimos a comida, apesar de estarmos em um restaurante super charmoso. É muito comum por aqui, os restaurantes oferecerem, em seus cardápios, um escolha que reúne uma entrada, o prato principal e uma sobremesa  com preços, que variam de 9,50 euros a 19,50 euros. O que difere, basicamente, um do outro, é a quantidade. A qualidade é a mesma. Hoje, almoçamos frango com ratatouli, salada verde com salmon e fritas. Um bom vinho nacional. As sobremesas variavam entre saladas de frutas frescas e “ tarte de pomme” (torta de maçã) muito comuns aqui na França.  Mas a ansiedade que sentíamos, quando vislumbrávamos o que nos esperava,  sobre os lindos sombreiros, colocados na área externa do restaurante, não permitia que dedicássemos muito tempo à alimentação.
 Enfim, subimos  Rocamadour, passo a passo, dominando a região. Ruelas estreitas, íngremes, ladeadas de lojas de artesanato, cujo principal produto são minituras de cavaleiros, arqueiros, damas da nobresa, e a incrível virgem negra, e cafés super charmosos. Podíamos escolher entre subirmos a pé, ou tomamos o elevadodor, e alcançamos  o primeiro patamar. Optamos pela segunda escolha.


As peregrinações a Rocamadour, na França, são célebres desde a Idade Média. Segundo a tradição, o santuário foi fundado nos primórdios do cristianismo, por meio de um altar erigido em honra de Nossa Senhora pelo aduaneiro Zaqueu de Jericó, que foi para a Gália após a morte de Cristo. Reza a lenda que a imagem de Nossa Senhora sentada num trono com o Menino ao colo, se esculpiu a si mesma do tronco de uma árvore. (Ual!!)Linda e singela homenagem à Virgem.
Esse Zaqueu, para quem não sabe, é aquele que os evangelhos relatam: o rico cobrador  de impostos que queria ver Cristo, e que, por sua baixa estatura, não conseguia, pois uma enorme multidão seguia Jesus. Por isso, subiu em uma árvore, para  poder melhor ter a visão de Cristo. Tão grande foi o impacto que Jesus causou a este homem, que ele se converteu à nova doutrina que surgia, doou todos os seus bens aos pobres, e passou a pregar em nome  da boa nova.
Mais tarde, Zaqueu mudou seu nome para Amador, de onde provém o título de Nossa Senhora: Nossa Senhora de Rocamadour, isto é, Nossa Senhora da Penha ou Rocha (Roc) de Amador.
 Para alcançar o cume do rochedo, onde está situado o santuário da virgem, há 217 degraus que o peregrino devia outrora subir de joelhos. O santuário é composto de três capelas e a igreja de São Salvador; esta, que data do século XIII, foi construída por cima da cripta de Santo Amador, cavada em 1160, e foi elevada à categoria de Basílica Menor.
Uma segunda escada conduz à capela de Nossa Senhora de Rocamadour, edificada no século XVII, no lugar do oratório primitivo, que tinha sido destruído pela queda de uma pedra.
A imagem antiga, restaurada, está no altar-mor desta capela, rodeada de lâmpadas continuamente acesas.
Antigamente vestiam suntuosamente esta imagem, mas, faz poucos anos, retiraram os ricos vestidos, para que se possa admirar a beleza da antiqüíssima imagem de madeira.
Rocamadour teve de suportar duras provações no decorrer do tempo: alternadamente, normandos, ingleses, albingenses, huguenotes e revolucionários obstinaram-se em devastar esse santo lugar de peregrinações; porém, houve sempre, em todas as épocas, fiéis generosos que se prontificaram a levantar novamente o santuário, de modo que de geração em geração chegou até nós a devoção a Nossa Senhora de Rocamadour, que, segundo relatos,  tantos milagres tem operado em favor dos que a ela recorrem.
Personagens ilustres e mesmo reis da França e de Castela, até o rei S. Luiz, iam rezar em Rocamadour, que era um dos grandes santuários de peregrinações de penitência. Hoje,  somos nós que estamos orando à Virgem, e agradecendo a oportunidade de aqui estarmos, caminhando no solo que Zaqueu  carregou a imagem da santa. Sua origem se    confunde com a implantação do cristianismo na Gália.
A peregrinação principal é em 8 de setembro, no entanto,  o local estava muito cheio de turistas, que passeavam pelas ruelas e  escadas.
As fotos  demonstram a beleza rústica da igreja. O altar simples e imponente. O centro da nave, super simples, cadeiras comuns, e um local , tipo mezanino, cravado na rocha. Rocamadour é toda rocha, rocha inteira, e incrivelmente impactante. A simplicidade ao lado da grandeza mística e histórica do local é uma combinação explosiva. Marca nossa alma para todo o sempre.
Realmente, Rocamadour contemplou minhas expectativas. Cidade cheia de histórias, construída na mais dura rocha, firme rocha, dirigindo suas torres para o céu.

Uma placa no meio do caminho, puxa os visitantes para a realidade histórica. Está escrito: “Você está no coração da peregrinação para orar e admirar”. É isso mesmo, Rocamadour é um local que nos inspira a oração. Outra placa informa:” São Luiz aqui esteve com sua mãe e seus irmãos, para visitarem a capela, em 1244”. Pisar estas pedras, as mesmas que São Luiz e Zaqueu  pisaram,  não tem preço...

Todo o percurso é magnífico! Construções rochosas tão belas quanto imponentes, firmemente preservadas, delicadamente impressionantes, que ficarão indelevelmente gravadas em meu espírito...que ficou enriquecido com tanta beleza... e realidade, que está estampada em todas as esquinas desta linda cidadela medieval, até com placas informativas.

As horas passaram e não nos demos conta do tempo. Enfim,  seguimos viagem para outro ícone francês da idade média: cidade de Carcassone. Previsão de chegada: 19 horas. Quando chegamos a uma cidade francesa, encontramos , como forma de sinalização, uma placa, pequena, com o nome da cidade. Quando  saímos, vemos uma placa igual, com uma faixa vermelha atravessada. Os acessos a estas pequenas e encantadoras cidades, é através de ruelas estreitas, que mal cabe o tamanho de um ônibus, ladeadas por muitas flores e  jardins  bem cuidados.
Pela estrada vemos passar placas indicadoras de Barcelona, ( 300 km), Andorra...Estamos em terras francesas, bem pertinho das espanholas.
Ao aproximar-mo-nos da região de Carcassone, o contorno da cidade medieval aparece no horizonte, em contraste com o por do sol, e arranca uma exclamação de admiração de todos: AH!!!!!!!! que emoção...
Como eu imaginara, durante todo esse tempo, ou melhor, é mais  do que eu poderia ter imaginado em meus devaneios... ela é muuuuito  linda.
Caro amigo, gostaria de  saber sobre Carcassone, e suas histórias? Aguardem a próxima postagem.
Até lá...

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