domingo, 11 de dezembro de 2011

Foie Gras, Nozes e Trufas Negras - Sarlat - Sofisticação e as mais belas fachadas medievais e renascentistas da França

Seguimos para a histórica e linda região de Perigord, Quercy e Gasconha, que foi palco da Guerra dos Cem Anos e de constantes guerras religiosas. Nosso destino é Sarlat-la-Caneda, que atingiu seu auge nos séculos 12 a 14  e se tornou famosa por possuir belas fachadas medievais e renascentistas.
Hoje faz frio e chove.  Estamos com 11 graus.
Nosso hotel é o Des Selves. Pequeno, aconchegante, um pouco distante  do centro medieval. Por isso, quando nos dispusemos a andar pelas ruas simples, comuns como qualquer outra rua de cidade do interior, até uma feira, não imaginei que iria encontrar aquela cidade completamente preservada. A  rua dos Consuls dá acesso a um túnel do tempo, pois pisando essa rua, de imediato, somos transportadas ao século 14. Linda, linda e linda, essa cidade de pedras amarelas, onde acontecia uma apresentação artística no meio da praça medieval. Que clima de festa...música, muita gente, frio, muitos recantos encatadores, construções tipicamente medievais.
Sarlat tem um dos centros renascentistas mais bem preservados da França. É também a cidade que atrai maior número de turistas na região, já que é considerada patrimônio da humanidade pela Unesco e é hoje a cidade européia que possui o maior número de edifícios tombados por quilômetro quadrado.
Visitamos a catedral gótica de Saint Sacerdos e a Lanterna dos Mortos, uma espécie de torre do século 12, com cerca de 10 m de altura, onde antigamente era colocada uma luz para guiar as almas dos mortos ao céu. De lá, é possível apreciar os tetos da cidade.
É também lá, em um palco montado atrás da catedral, que é realizado o festival de teatro de Sarlat, e onde estava acontecendo uma apresentação coreografada por meninas com roupas coloridas.
O mercado coberto que funciona dentro de uma antiga igreja, aberto nas manhãs de terça a domingo é super interessante e charmoso. Barracas vendem produtos frescos e ingredientes típicos da região. As lojas que vendem foie gras são as mais numerosas.
Por toda a cidade encontramos vários  comércios  vendendo foie gras, acompanhado de um patinho de cerâmica ou de tecido, embelezando a loja e as embalagens. As lojas, tanto na parte externa, quanto interna, são lindamente decoradas com motivos bucólicos, casais de patinhos vestidos com roupinhas quadriculadas e com chapéus. Sem falar das flores absolutamente frescas e vibrantes.
 Os azeites, óleos em geral, cereais, são o forte dessa região. As trufas também, e as negras são as mais procuradas apesar de caríssimas, sem  falarmos dos vinhos, que são fantásticos.
Esta  cidade tem um diferencial, pois ela é habitada normalmente, não é um museu, como outras, onde as pessoas trabalham, vendendo artesanatos ou mantendo outros comércios, mas moram em outras cidades . Sarlat  tem 10 mil habitantes e se desenvolveu a partir do século VIII  em torno de uma abadia. Os famosos  intelectuais  La Boétie  e Montaigne  nasceram  aqui.
 Dá um enorme prazer caminhar observando e fotografando tantas casas, torres, restaurantes, cores, flores, tudo é bonito...

Procurando um jantar nesta linda cidade, vimos um restaurante chamado brasserie Le Glacier. Qual a nossa surpresa, ao ouvirmos o garçon falar português. Era o que estava faltando para entrarmos e escolhermos um belo prato. Ainda tivemos oportunidade de conversarmos com o português, que muito cordial, disse-nos que gostaria de conhecer o Brasil. Ficamos um bom tempo , ali, sentados, na área externa do restaurante, degustando nosso jantar, e apreciando o movimento. Aqui, tudo é calma, arte e cultura. Talvez com um pouco de monotonia para quem  participa dessa dinâmica, no dia a dia, mas para mim,  que estou conhecendo o interior da França, e agregando ao meu universo tantos conhecimentos, culturas,  sabores, cores diferentes, é renovador, e me dá a impressão que a terra parou de girar. Ficou parada também, apreciando tamanha serenidade...                        
Retornamos ao nosso hotel, a pé, sem esforço. Estamos mais adequados ao fuso horário francês,  e portanto, mais confortáveis. A chuva parou, e um solzinho apareceu abençoando a bela cidade, e  a todos  nós.
Amanhã vamos para Rocamadour, e sei que vou adorar, pois é um dos destinos mais esperados por mim.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Castelos Medievais - Chenonceau e Amboise - Tesouros do Vale do Loire

Os dias em terras da França estão realmente especiais, neste maio de 2011. Temperatura agradável, céu azul, chuva nem pensar... ideais para passeios a céu aberto, como os nossos .
O primeiro castelo que visitamos foi o Chenonceau, conhecido como castelo das damas. Apesar de já tê-lo visitado, em 2007, sempre causa-nos impacto sua imponência. O verde dos plátanos que nos introduzem na famosa alameda, contrasta com o azulíssimo do céu. Isto alegra meu espírito. Gosto do clima frio, agradável da Europa.
Chenonceau   é um dos castelos mais bonitos do Vale do Loire e talvez o que carrega a história de alguns dos personagens mais interessantes da monarquia francesa. O Castelo das Damas, como é conhecido, foi erguido no século XVI,  em um modesto domínio feudal.
O castelo é imenso, composto por muitos  quartos. São aposentos construídos para os reis Francisco I, Henrique II e outros nobres. Aqui viveram ainda a rainha Catherina de Médicis e a amante de seu marido, Diana de Poitiers, para quem o rei presenteou o château. Depois da morte de Henrique II, em 1559, Catherina, agora rainha da França, expulsou -a  e a mandou para outro castelo, o de Chaumont-sur-Loire, mas durante muito tempo amargou a presença de Diana como a favorita de seu marido. Nas paredes de alguns cômodos é possível ver as iniciais H e C, de Henrique II e Catherina, que entrelaçadas formam o D, de Diana. Interessante como até os monogramas se entendem e  sugerem o triangulo amoroso. Bem ao lado do quarto da amante fica o Gabinete Verde, de onde Catherina governou a França. A rainha também imprimiu sua marca no castelo, redecorando-o e inserindo suas letras no teto e nas paredes das principais salas, marcando seu território.
No último andar, há um quarto todo pintado de preto e detalhes que lembram o luto. Este quarto abrigou Louise de Lorraine, esposa do rei Henrique III, assassinato pelo monge Jacques Clément, em 1589. Após a morte do marido, Louise decidiu se recolher em Chenouceau para rezar. Sempre vestida de branco, segundo o protocolo de luto real, ficou conhecida mais tarde como a “Rainha Branca”.
Os jardins de Chenouceau  são clássicos. São dois, sendo que o maior pertence a preferida e amante  do rei,  Diana de Poitiers. O menor e mais íntimo foi construído para a rainha Catherina. A decoração dos jardins é totalmente renovada na primavera e no verão  totalmente floridos e impecáveis.
Visitas a castelos medievais são muito interessantes para, quem, como eu, curte o tema. Chenouceau  contempla as expectativas, pois é o único do gênero.  Representa um ícone na França, às margens do Rio Cher. O conjunto composto pelos jardins, (que são impecáveis) pelas linhas elegantes de sua estrutura e pelo  seu interior, belamente cuidado, fazem deste castelo uma atração sem par, em arte e arquitetura francesas.
Chenonceau está situado pouco ao sul de Chambord, que também visitamos em 2007, mas hoje, não será possível.Talvez a única coisa frustrante sobre este local é que, para apreciar plenamente a beleza de seus jardins, um visitante teria que estar a bordo de um helicóptero ou coisa parecida. Os franceses sempre foram excelentes mestres de jardinagem, mas o conjunto da obra, infelizmente, não pode ser adequadamente apreciado do nível do chão.
Aqui, também tem lojinha de lembranças. Resolvi compor uma pequena França medieval, comprando a miniatura de um  cavaleiro a cavalo, com sua espada, elmo com penas, dois cavaleiros à pé, tipicamente trajados e uma dama. Só para registrar essas memórias.
Seguimos para Amboise, outra cidade que tem um castelo com o seu nome.
A cidade de Amboise fica perto de Blois e é o segundo destino turístico para quem vem de Paris. O castelo de Amboise fica no centro histórico, numa elevação às margens do Loire. Foi construído por Carlos VIII e posteriormente ampliado e reformado por Luís XII e Francisco I.
Um pouco da história de Amboise:
“Francisco I levou para Amboise Leonardo da Vinci, que ali viveu seus últimos dias e está enterrado na capela do castelo. Em Clos Lucé, palacete onde Leonardo morou, estão engenhocas construídas a partir dos planos deixados pelo artista e inventor.
Em 1560, durante as Guerras de Religião Francesas, o castelo foi cenário da Conjuração de Amboise, prelúdio dos conflitos entre católicos e protestantes na França. Esta conspiração, engendrada por membros da huguenote Casa de Bourbon contra a Casa de Guise que virtualmente governava a França em nome do jovem Francisco II, foi descoberta pelo Conde de Guise e reprimida por uma série de estratégias.
 Quando isso já estava acabado, 1200 protestantes foram enforcados, pendurados nas muralhas da cidade, suspensos em ganchos de ferro que sustinham galhardetes e tapeçarias em ocasiões festivas e do balcão da Logis du Roy. A Corte teve que deixar a cidade pouco depois devido ao cheiro nauseabundo libertado pelos corpos.
Também vimos os alojamentos do rei, ala Charles VIII, ala Luiz XII, e os aposentos particulares dos reis. “
Ao passear pelos aposentos do palácio, retive minha atenção no tal balcão, o Balcon des Conjures, de onde se tem uma vista magnífica para o vale do rio Loire, e de onde os huguenotes foram massacrados. O filme Rainha Margot, retrata muito bem este episódio. O rio ficou vermelho do sangue daqueles homens. Muito impressionante pisar e tocar essas pedras, que permaneceram no mesmo lugar, que foi cenário de fatos reais tão dramáticos, de livros de Vitor Hugo, e de vários filmes históricos.
Entre os pontos de destaque de Amboise, podem ser também apreciados pelos turistas a capela Saint-Hubert, onde dizem , estão os restos mortais de Leonardo da Vinci que morou em Amboise nos últimos três anos de sua vida. Eu disse dizem, porqu, parece que até hoje, essa história não está bem comprovada.
Grande amigo e mecenas de Leonardo, o rei da França, Francisco I convidou-o a morar em Amboise oferecendo-lhe uma bela casa (dizem que com passagem secreta aos aposentos privativos do Rei...) e uma « mesada » suficiente para que ele pudesse viver tranquilamente os últimos anos de sua vida. Não seria impossível existir a tal passagem secreta, pois o castelo é muito perto da Clos Lucé. O rei, que nesta época tinha 21 anos, reverenciou a sabedoria de Leonardo, e  ficaram muito amigos, o que trouxe um pouco de sabedoria ao rei. Um menino com poder, e um sábio, um gênio da humanidade.
Na sua viagem à Amboise Leonardo trouxe consigo seu aprendiz, (servo e grande amigo), seu burrico e duas obras, entre elas a célebre « Gioconda » (Mona Lisa).
Dentro da  Clos Lucé, podemos ver os aposentos de Leonardo da Vinci, quarto, sala, cozinha ...assim como uma serie de invenções – de tanques de guerra à bicicleta.Descemos a rua estreita onde a Clos Lucé está situada, e no caminho paramos para apreciar várias casas trogloditas, que só víramos à distancia, do ônibus. Elas são incríveis. São cavernas, obviamente, buracos na rocha, que as pessoas aproveitam para complementar a casa. Então elas são garagens, quartos, varandas, e, até, mesmo, uma casa, com mobiliário, flores, tudo arrumadinho. O preço delas é bem caro, mas  não sei quanto.
Hoje, trocamos o almoço por um lanche. Foi melhor assim, pois ficamos com mais tempo livre para passearmos. Panines, sucos e sorvetes, foram o suficiente para nos mantermos até chegarmos ao nosso destino, que é a cidade de  Tours. Está fazendo muito calor. É o  dia mais quente até agora. Depois de andarmos muito, apreciarmos as partes turísticas, compramos doces deliciosos em uma loja com muitas especialidades, com aparência tão boa quanto  o gosto.
Despedimo-nos de Amboise,  super satisfeitos com a visita. Entrar na casa  de Da Vinci, vislumbrar a vista do lindo Rio Loire do balcão, onde atrocidades foram cometidas em nome do  poder da religião, caminhar por esta cidade encantadora, foi uma grande emoção...


sábado, 26 de novembro de 2011

Glorioso Loire - Vale dos castelos, reis, rainhas e guerras



Saímos de Dinard, às 8:30 h em direção a Saumur. O céu está lindo, azul!
A estrada é ótima. A vegetação é verdejante, emprestando contornos muito lindos e  charmosos  à paisagem. 
Quando chegamos a Saumur, fizemos um boa caminhada para  conhecermos, de imediato,  o castelo, pois a cidade foi fortaleza no século X.  Cidade pequena, simpática, agradável, fica no Vale do Loire, tem  66 km2 e 30.000 habitantes.
Logo chegamos ao topo de um pequeno rochedo , onde fica o castelo, que  majestoso, domina a cidade e o Loire. Em 1480, após a morte do Rei René, último duque d´Anjou, Saumur retorna ao reino da França. Foi sucessivamente residência dos governadores da cidade, prisão e depósito de armas e de munições. Desde 1912 abriga o museu municipal.


O castelo foi classificado em 2000, como "Patrimônio mundial da humanidade, tem mil anos e de longe, parece um castelo de contos de fadas, mas infelizmente, não é visitável.



  A cidade de Saumur  fica a mais ou menos 200 km de Paris, na Região Centro da França e vai até perto do Oceano Atlântico. É chamado de o Jardim da França ou Touraine.
De leste a oeste, o Centro, a Touraine, o Anjou, o Saumurois e o País de Nantes são as grandes regiões de apelação de origem controlada (AOC), que é o selo que os vinhos recebem quando são considerados de ótima qualidade.

A  região  do Vale do loire foi escolhido por reis e rainhas e membros da aristocracia francesa desde a Idade Média, por isso são tantos os castelos por aqui protagonistas deste cenário magnífico é o vale do Loire, onde buscaremos castelos, que se situam ao longo do rio, que, aliás,  muito me impressionou. 

Percorremos grande distância, sempre margeando o rio. Vimos vários trechos em que ele estava seco, ou quase. Mesmo assim, é belo. Algumas embarcações, lembrando nossas  jangadas, (pois possuem uma vela, que muito se aproxima às do nosso nordeste), navegam, ou simplesmente, ficam ancoradas em alguns pontos. É muito linda, chama-se gabarres, e são  típicas do rio Loire. Esse rio é muito charmoso. É aqui nesta região que  buscaremos castelos, que se situam ao longo do rio, que, aliás,  muito me impressionou. 




As casas trogloditas são muito comuns nessa região. São casas construídas em antigas cavernas oriundas das escavações de tuffeau, uma pedra usada para construir todos os castelos e mansões das redondezas. Nunca vira uma casa troglodita, nem  imaginara que são valorizadas.


Os escavadores recebiam essas cavernas como “pagamento” pelo trabalho de extração, corte e transporte das pedras. São buracos nas rochas, com janelinhas e flores. Ficamos pouco tempo em Saumur, apenas para o almoço, mesmo.
O rio Loire é  lindo. Não sei se é porque, com a seca, ele está com bancos de areias em seu leito expostos, ou se é por causa das nuvens brancas e céu azul, ou se é por causa dos pescadores que estão embarcados, calmamente, com redes nas mãos, talvez, esperando um peixe incauto aparecer. Não sei não, mas essa paisagem me transportou para um tempo muito agradável. Partimos, e vou me distanciando dessa paisagem, muito linda, flores amarelas e roxas pelas estradas, são giestas e lavandas...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Saint Malo - A Cidade dos Corsários




Deixamos o Mont Saint Michel para trás, ainda sentindo uma grande emoção com as belezas locais  e a história secular,  tomamos o rumo de Saint Malo, que é   uma cidade da Bretanha, às margens do Canal da Mancha, e uma das mais bem conservadas da França. É conhecida como cidade dos corsários, porque aqui viviam os famosos: Jacques Cartier e Villegaignon. É uma verdadeira jóia. Quando a contemplamos do lado de fora, vemos uma cidade medieval, conhecida como Ville Intra-Muros. Durante os séculos 15 a 18, saíram muitos navios daqui, inclusive piratas, em busca de tesouros e riquezas pelo mundo afora, o que fez com que Saint Malo ficasse conhecida como a cidade-corsária.
O que me impressionou muito, ao olhar a belíssima paisagem oceânica, foi ver aquela areia tão macia e branca repleta de grossas toras de madeira enterradas. Soubemos  que o mar aqui é muito violento,  muitas vezes invade a avenida, e as toras são para conter o ímpeto das ondas.
Coloquei uma  foto  neste blog, onde vê-se  as toras e uma ilha ao fundo, que segundo soubemos, o famoso ator  frances Alain Delon, quis comprar para fazer uma boate no forte que lá está situado. Não conseguiu seu intento, pois o governo Frances não permitiu.

Do lado de fora da cidade, vê-se perfeitamente, como ela é protegida, e vários veleiros, lembrando os idos daqueles tempos dos velhos e valentes corsários.



O almoço foi etapa a parte.  Os franceses são demorados no serviço. Mas o local agradável compensou. Aqui no interior da França podemos escolher refeições que são compostas por três etapas: uma entrada, um prato principal e a sobremesa. O preço é único e razoável. O sabor sempre é muito bom e sofisticado.


Alcançamos  o portão Saint Thomas, que permite o acesso  à cidade Intra-Muros.
O primeiro passeio, sem dúvida, é o contorno das muralhas, pelo caminho superior, que leva pouco mais de uma hora. Alguns trechos desta muralha foram construídos no século 12 e lá de cima é possível vislumbrar a cidade moderna, o estuário do rio Rance e a cidade vizinha de Dinard, em sua margem oposta,  onde estamos hospedados.
Andamos descontraidamente pelas estreitas ruas que cortam todo o interior da ville intra-muros.  Desfrutamos de momentos muito agradáveis, pois o clima estava ameno, as ruas muito limpas, várias lojinhas  de  artesanatos com motivos marítimos, perfumarias ( às vezes, esqueço que estou em terras de França...) e belíssimas e atraentes lojas de guloseimas: chocolates, macarrones, doces, e panetones, deliciosos.
Todos os prédios tem a mesma altura e foram construídos com pedras de granito cinza, criando um conjunto harmônico.
Enfim... a tarde passou dolentemente, e seguimos para Dinard.
Foram tantas as emoções vividas hoje...convivemos com lendas  de cavaleiros medievais, lembranças de  monges misteriosos, natureza agreste e bravia, imaginário de corsários aventureiros, histórias de famosos atores de cinema.  Dia completamente preenchido, contemplando  minhas  expectativas. Minhas viagens de  trinta  dias na Europa  são um mês sabático. Esqueço tudo, reaprendo tudo...graças a DEUS














segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Saint Michel - pedaço da Europa medieval que sobreviveu aos tempos.




Em uma manhã fria e bela, saímos de Dinard,  e seguimos viagem para o Monte Saint Michel, local que ansiava conhecer desde há muito tempo.

Em todas as pesquisas que fiz, Saint Michel aparecia para mim com enorme fascínio, por ser uma abadia secular, divisa entre a Bretanha e a Normandia. É um dos lugares turísticos mais visitados da França, patrimônio universal da humanidade.  As fotos na internet, focam uma enorme construção, como um palácio no topo de um rochedo, cercado de águas por todos os lados, parecendo estar isolado no meio do oceano.


Que absurdo de monumento!
À medida que nos aproximávamos do local,  a silhueta do morro se tornava visível no horizonte, o céu cinzento das primeiras horas da manhã conferiam uma dramaticidade extra ao local.
A primeira foto tirada, foi no solo que é inundado periodicamente, pelo mar, com o imenso monte ao fundo.A costa desta região francesa, é o lugar do mundo onde ocorrem os maiores desníveis entre marés altas e baixas, podendo a diferença chegar a quinze metros. Isto quer dizer, que, onde eu estou na foto, com ônibus e carros estacionados, é totalmente inundado por águas. Isto não é incrível?? Por isso e outras magias,o Monte Saint Michel se destaca como  um lugar especial no planeta, diferente de qualquer outro lugar. Dependendo da condições das marés,  a abadia fica envolta  por um areal sem fim, a dez quilômetros de distância do mar, ou então completamente envolvida pelas águas, como se fosse uma ilhota, ligada à terra firme somente por uma estradinha, que impede que o local fique isolado durante as marés cheias.
Em outras palavras, o mesmo local, dependendo da hora ou do dia de sua visita, poderá assumir um visual e situar-se num cenário completamente diferente.
A pergunta que fazemos  ao deslumbrarmos a magnificência desse monumento, é: porque essa abadia foi construída em local de tão difícil acesso, e em uma época que a tecnologia não ajudava a complexidade da construção?
A origem exata da cidadela, não é conhecida em detalhes, os historiadores dizem que foi  por motivos religiosos, políticos e militares, questão de defesa, contra os invasores, é claro. Iniciou no ano 709, quando surgiu a primeira igrejinha sobre o rochedo, obras diversas foram contribuindo para que, ao longo dos séculos, o local assumisse a forma que possui em nossos dias.




É claro que existe uma lenda que justifica a construção do monumento.  Conta-se que nesse mesmo ano,  o bispo da cidade de Avranches sonhou, ou teve uma visão com o Arcanjo São Miguel, que determinou  a realização de uma grande prova: a construção de uma capela no topo do rochedo, isolado  à beira mar. O Senhor ficaria muito feliz, e protegeria  todos da cidade dos freqüentes invasores.
Quando a tarefa foi cumprida, foi colocada no topo da capela, uma imagem do arcanjo São Miguel, que até hoje, está lá, e  podemos admirar com emoção.

O monte passou por muitas situações, desde invasões de inimigos,  acolhimento de peregrinos, e mais na atualidade conseguiu atrair a visita de artistas, pintores principalmente, que atuaram como socializadores das belezas do local.


Com isso, não tardou para que  Saint Michel bombasse com a presença de muita gente. Ganhou notoriedade em toda a França e até mesmo além dela. Atualmente, cerca de três milhões de pessoas visitam anualmente o monte, das quais um terço faz a peregrinagem completa, subindo o morro até a abadia. Em dias festivos ou épocas de férias, o número de visitantes diários chega em média a vinte mil pessoas.


Claro que com tanta gente querendo conhecer o rochedo, o comércio proliferou.
 É muito linda a entrada da cidadela, lembrando o que vemos em filmes de cenário medieval. Quando estamos do lado interno das magníficas muralhas,  vemos simpática e estreita ruela de aparência branquíssima, repleta de lojinhas oferecendo tudo que seria possível imaginar sobre o local, com a imagem gravada ou com a forma do monte. São milhares de pratinhos, porcelanas, chaveiros, ímãs, guardanapos, calendários, camisetas, pôsteres, postais, vinhos, biscoitos, doces, chocolates, publicações, DVDs etc etc.  Resolvi comprar várias estatuetas de cavaleiros medievais , para colocar em minha estante do escritório, para nunca mais esquecer o que meus olhos estão gravando hoje.



 Existe, também, o famoso "Omelette de la mère Poulard", especialidade do restaurante Mère Poulard, um dos mais tradicionais de St Michel.. O guia não cansou de sugerir que os  provássemos.
São 200 metros de comércio intenso, colorido, alegre.  Daí para frente  começa a subida propriamente dita ao monte. Passamos por alguns hotéis  e bons restaurantes. Atingimos a  uma imponente porta de madeira, que é  área religiosa do monte, onde então uma nova seqüência de escadas que conduzem os visitantes à plataforma superior, de onde se tem acesso à basílica, que de tão bela,  passou a ser conhecida como "La Merveille", ou seja, A Maravilha. 
O Monte Saint Michel consiste numa rocha de puro granito com 84 metros de altura, sendo que a pequena ilhota tem diâmetro de 800 metros.
Depois de atingirmos a abadia, o roteiro interno continua  por diversos ambientes belíssimos. Salões, arcadas, colunatas, câmaras escuras, rampas, jardins internos, o refeitório dos monges e outros ambientes, todos em pedra, que nos dão a nítida impressão de ter voltado mil anos no tempo, e estarmos percorrendo um local que parou no tempo, em plena Europa medieval (e pensando bem, é isto mesmo).
Os trechos fortificados do Monte St Michel são igualmente impressionantes. Destacam-se as grandes torres (tour Claudine, tour du Nord, tour de la Liberté, tour de l’Arcade, tour du Roi e tour Boucle) que flanqueiam as muralhas da cidadela e o caminho de ronda, que faz o contorno da mesma, e oferece visuais belíssimos.
Num dos planos mais altos do monte, está situado o claustro. Levamos duas horas para completar a visita  guiada. Imaginei muitas vezes os monges andando por aqueles espaços, e também prisioneiros, pois o ambiente revela toda condição para isto.





Num dos planos mais altos do monte, está situado o claustro. Levamos duas horas para completar a visita  guiada. Imaginei muitas vezes os monges andando por aqueles espaços, e também prisioneiros, pois o ambiente revela toda condição para isto.


Tudo, em S. Michel me fez bem, me fez sentir  à vontade, como se não fosse a primeira vez em estar aqui, desci as enormes escadarias com uma leveza  que não me é peculiar.

Saímos de Saint Michel  maravilhados com tudo o que tínhamos visto. É um pedaço da Europa medieval que sobreviveu a inúmeras investidas destrutivas , mas conseguiu impor-se pelo que é... por sua  beleza dramática!
Disse a guia que o governo Frances tem a intenção de isolar o castelo da passarela que conduz à cidadela, pois essa área fica muito cheia de ônibus e carros. O acesso deverá ser de barco.  Felizmente, tive a oportunidade de percorrer esse caminho com as próprias pernas.
horizonte  no alto do Monte Saint Michael
Eu adorei sentir o Monte Saint Michel, vê-lo de perto, percorrer suas ruelas, descer e subir seus muitos degraus, ouvir a guia  contar histórias medievais, entender porque tantas pessoas lotam esse monumento tão espetacular.
Lá em cima do topo do monte, pude vislumbrar a incrível paisagem... mar, areia, nuvem, céu, tudo convergindo no horizonte.

O melhor lugar para se hospedar na região é na cidade vizinha de Saint Malô. Teremos mais meia hora de carro de Saint Michel,  e  é para lá que vamos.