Carcassone – Reis, Damas e Cavaleiros – Um reino de eterna magia...
Carcassone é a cidade medieval murada melhor preservada da Europa. Situada no sul da França, ela é o típico lugar que as pessoas só acreditam que ainda existe, quando chegam lá e vêem por si mesmas. À medida que suas torres, e sua grande muralha externa, se tornavam visíveis e cada vez mais próximas, nossa emoção e espanto se tornavam cada vez maiores. Era como se o passado tivesse surgido de repente, após uma curva da estrada e era difícil acreditar que tudo aquilo existia mesmo, como se, o que só pertencesse aos livros de história e filmes pudesse estar bem ali na nossa frente.
Percorremos 400 km de Rocamadour a Carcassone. Nosso hotel é bem próximo à cidade, e nos apressamos muito em nos acomodarmos, para começarmos imediatamente a nossa caminhada para aquela cidadela, pois ela é tão atraente, que eu não queria esperar nem um minuto sequer.
O fato de chegarmos ao anoitecer, só concorreu para embelezar ainda mais o cenário mais impactante que já vi. Nada se assemelha ao que vimos. O filme Robin Hood, de Kevin Costner, teve como cenário as muitas muralhas de Carcassone.
À noite, Carcassone se transforma, e assume um aspecto ainda mais dramático. Suas ruelas escuras, o calçamento de pedra, rampas e torres que conduzem a lugares desconhecidos, portinhas estreitas, janelas semi iluminadas, arcos, portais, luzes e sombras criam uma atmosfera mágica. Carcassone à noite é maravilhosa. A noite estava linda, céu negro prateado, com uma lua magicamente posicionada entre as muralhas. Incrível!! O jantar foi em um restaurante com decoração medieval. A comida ótima, boa conversa regada a um bom vinho, com alguns amigos.
Pela manhã, encontramos com Jonh, um senhor francês que fala um espanhol bem compreensível, ele é o nosso guia. Contou-nos detalhadamente, a história da cidade, que é incrível. Desculpem-me aqueles que não gostam de história, mas ela é imprescindível para o entendimento de sua preservação.
A cidade conheceu tribos gaulesas, e depois romanos e mais tarde passando pelos visigodos, sarracenos, francos, diversos senhores feudais, e os reis da França.
Muitos povos contribuíram para o crescimento, fortalecimento e história de Carcassone. A célebre frase: "Matem todos, Deus saberá quem são os seus." Foi pronunciada pelo monge Arnold Amaury, no momento em que a matança com tantas guerras estava descontrolada. Todos desconfiavam de todos naquele tempo, então os poderosos, na dúvida, mandavam matar a todos, sem misericórdia, pois achavam que Deus saberia separar os ”bons” dos “maus”.
A história de Carcassone está também muito ligada ao Catarismo, uma seita cristã politeísta, surgida na região de Languedoc, em fins do século XI. Os adeptos desta religião, conhecidos como Cátaros, tinham sua própria interpretação das leis divinas, muitas delas conflitantes com o que pregava a igreja católica. Além disso, acreditavam que os homens não precisavam de intermediários para se dirigir à Deus, portanto não reconheciam a autoridade do Papa ou de seus bispos. Acreditavam também, entre diversas outras coisas, que todas as pessoas vivas tinham como objetivo evoluir através da expiação de suas faltas, e que levando uma vida dedicada ao bem e progredindo sempre, o que seria atingido através de sucessivas encarnações, um dia teriam direito a chegar ao paraíso.
A igreja católica não aceitou tal situação, declarou que os moradores de Carcassone eram todos hereges e decidiu dar um basta àquela história toda, convocando os cruzados para invadir a cidadela, acabar com os Cátaros e dar um fim àquela doutrina.
Seguindo a ordem Papal, foi organizado um exército de cruzados, que se dirigiram a Carcassone, tomaram e invadiram a cidade. Conta-se que os cátaros guardavam, entre seus mais preciosos bens, o cálice que Jesus teria usado na última ceia, conhecido como Santo Graal, e que antes da cidade ser invadida pelos cruzados, alguns Cátaros conseguiram escapar, levando com eles o Santo Graal.
Após invadir Carcassone, os cruzados tinham ordem de impor aos cátaros o catolicismo. No entanto, praticamente todos se recusaram a abandonar sua fé e foram condenados à morte na fogueira. Mesmo assim as idéias religiosas dos cátaros não desapareceram, como pretendiam os cruzados, e muitos de seus conceitos de fé podem ser encontrados atualmente em outras religiões, como aquelas difundidas por Allan Kardec em seus livros espíritas.
Entre os pontos mais visitados de Carcassone estão o Portão de Narbonne, a Torre da Justiça, e a Torre da Inquisição. Visitamos, também, o castelo, construído no ano 1130, a Basílica de Saint Nazaré e a torre da prisão.
A parte mais antiga de Carcassone foi construída no século IX, sendo depois aumentada nos séculos XII e XIII. Foi o rei francês Luis IX, da dinastia dos Capetinos e que entraria para a história com o nome de São Luis, que em 1240 teve a idéia de construir uma segunda linha de muralhas em torno de toda a cidade, pois assim eventuais atacantes precisariam romper duas barreiras em vez de apenas uma. A eficiência desta defesa foi tão grande que durante a guerra dos cem anos com a Inglaterra, quando os Ingleses chegaram até o sul da França, eles conseguiram atear fogo à torre mais baixa de Carcassone, mas não conseguiram realizar seu intento principal, que era entrar e dominar a cidadela.
Após tantos séculos suportando combates, guerras, cercos, cavaleiros cruzados, Carcassone foi praticamente abandonada. Ela não tinha mais importância militar nem política. A cidade baixa, situada logo do outro lado do rio (também chamada Carcassone), ganhava importância à medida que a cidade medieval (Cité de Carcassone) perdia.
Somente a partir do século XIX começou a surgir a consciência a respeito da importância da preservação dos lugares históricos do país, dentre eles Carcassone. A cidade, completamente arruinada, passa a receber as primeiras restaurações, da qual participaram nomes famosos como Prosper Mérimée e Eugène Viollet-le-Duc.
A aparência medieval de Carcassone, se restringe, mesmo, a parte externa da cidade, pois o seu interior apresenta tudo que qualquer outra cidade turística tem: muitos restaurantes, lojinhas, recantos aprazíveis, muito artesanato de sabonetes, saches, temas medievais, roupas de banho, cozinha, muitas estatuetas de cavaleiros, inclusive a távola redonda inteira, com direito ao Rei Artur e Lancelot. Tudo muito delicado e lindo...
Subimos e descemos as ruas estreitas, várias vezes, descansamos sob uma árvore, em um banco de praça, apreciando o movimento, deixamos o tempo passar, observando as pessoas, turistas com certeza, diferentes em vários aspectos, muitos adolescentes, ( iguais a quaisquer outros, barulhentos, felizes, apressados), idosos elegantes, degustando vinho. É nesses momentos de imensa paz interior, em companhia de meu marido, sentados sob a sombra de uma árvore na França, Carcassone, tão longe da minha casa, que avalio como essa viagem é importante para mim, pois aqui tenho a verdadeira noção do que é a vida, sem correrias, sem as restrições que o trabalho nos impõe, a luta pela sobrevivência, as preocupações familiares, tudo enfim, parece se misturar e desaparecer em um mundo paralelo, que no caso representa os 335 dias do ano comum. No entanto esses 30 dias em que me afasto da realidade são tão verdadeiros, me preenchem com tanto combustível de vida, que passaram a ser indispensáveis. São momentos libertadores...
Deixamos essa bucólica paisagem, pegamos nossa bagagem de lembranças, e tomamos um trenzinho turístico para passearmos pelas muralhas externas da cidade, conhecendo o seu entorno. Mas hoje é domingo, e o comércio está fechado na cidade normal, e naturalmente, como qualquer outra cidade, as ruas parecem abandonadas.
O cansaço é enorme. Parece que meus pés estão quebrados em três partes, porém o espírito enriquecido muitíssimo. Decidimos jantar no aconchego do nosso quarto.
Amanhã partiremos para Nimes.
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